sábado, 16 de junho de 2007

Simplifica, menino.


Tem épocas em que se trabalha muito, mas as fotos não aparecem. Tem também épocas em que as fotos são publicadas mas você não está feliz com isso. E em comum com todas essas épocas estão dois conhecimentos: (parafraseando o Millôr) dinheiro independe e a gente está sempre com a impressão de que pode fazer melhor.

Mas as vezes, na verdade, quase sempre, muitas fotos bacanas estão em coisas bobas. E em geral, eu tendo a gostar de coisas simples. Sempre penso nas fotos do Custódio, do Evandro, do Sam Abell e sei que é prá onde eu quero ir.

A foto é de uma cooperativa de produção de artesanato com fibras naturais em Quissamã. Foi feita para uma pequena editora que tinha um contrato com a prefeitura de lá.


Foto: Rafael Andrade / Rafael Andrade Serviços Fotográficos

sábado, 9 de junho de 2007

Voando


Um chefe que eu tive há algum tempo dizia que quando ele era fotógrafo, seu editor falava que o bom fotojornalista era como uma águia. Sobrevoava a cena, ou o lugar onde a notícia estava acontecendo, e conseguia ver um pouco de cada coisa, produzindo fotos variadas que mostram o maior número de situações daquele assunto. O meu chefe dizia o que seu chefe dizia. E eu aprendi que nesta profissão antiguidade realmente é posto.

Apesar de achar a comparação com uma águia um pouco imprecisa, acho que muitas vezes, principalmente quando se é muito novo e inseguro, concentramo-nos demais em determinado aspecto de uma cobertuta porque aquela visão parece mais familiarmente jornalística. Parece ser a notícia mais clara. Muitas vezes não é. Erros de julgamento acontecem. Bastante. E muitas vezes no "calor da ação" temos dificuldade em discernir o que acontece, ou mesmo, ver de forma diferente o que está na frente dos olhos. Nariz de cera a parte, a foto abaixo é só porque sempre que estou na rua lembro do que dizia esse meu chefe.

No feriado de Corpus Christi fui a Niterói pelo Extra para cobrir um assunto e acabei na Amaral Peixoto onde fazem esses tapetes de sal. Depois fazer um registro, lembrei dessa comparação com a águia. E entrei no terceiro andar de uma delegacia para fazer um vôo sobre o assunto. A foto infelizmente não foi publicada. Ossos do Ofício. Voar pode te dar muitas opções, mas entre fotografar e publicar vai uma distância quem muitas vezes nem a águia é capaz de transpor...
Foto: Rafael Andrade / Agência O Globo

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Cortando




Em geral, publicar foto em jornal é um desafio grande. Em primeiro lugar porque o espaço na página é um ser que está em constante mutação de tamanho. No começo do planejamento de uma página de uma seção qualquer de um jornal, mesmo que seja uma edição dominical, que em geral é fechada com alguma antecedência, há o branco primordial. Centímetros e mais Centímetros quadrados de papel em branco que podem ser preenchido de diversas formas. Com o passar do tempo, no processo de diagramação e de edição, o espaço muda de forma. Surge um anúncio pequenino, daqui a pouco descobre-se que tem que entrar mais uma matéria naquele espaço que antes cabia apenas uma reportagem, e o espaço que antes era teritório selvagem, não branco como a neve, mas branco cheio de possibilidades, vai ficando com uma cara mais ou menos definida. Neste ponto, do modo como o jornal é composto hoje em dia, é que o fotógrafo dança. Depois de plantonear dez horas na porta da polícia federal, ou na explanada dos ministérios em busca da foto tão esperada, é na redação que a verdade vem à tona. Não há espaço na página. Com isso, um sem número de fotos arduamente compostas e preparadas para o jornal nunca chega a manchar a página. A Folha de SP, para quem vez por outra eu presto serviços, costuma resolver a questão do espaço com uma ferramenta interessante: o corte. Se o espaço é menor que o tamanho da foto ou se "eles"acham que há porque mudar algo na foto que foi escolhida para ir para a página "eles" dão um corte na foto. Os resultados são os mais variados, mas em geral, além de permitir que se publique fotos nos espaços mais apertados ainda dá uma cara "muderna" ao jornal. Mais vale pássaro na mão que dois voando? As vezes sim. Não sei se publicar meia foto é melhor que publicar uma foto inteira, mas não ver a foto na página também não é bacana.


Foto: Rafael Andrade /Folha Imagem

domingo, 27 de maio de 2007

Hora certa Lugar Certo


Hoje vou desdizer aquilo que eu já disse antes. Em jornalismo, 90% das vezes o importante é estar no lugar certo na hora certa. E mais importante, paciência e calma tem que caminha juntas. Desespero, impaciência e nervosismo acabam com a chance de qualquer um fazer um bom trabalho. Na última sexta, fui fazer um enterro para o Extra. No fim da pauta, quando voltava para a redação chateado pelas fotos que fiz, achava tudo muito poluído, muito registro e pouca foto, como se diz, passando pela Avenida Brasil, um ônibus entrou dentro de um posto de gasolina e se acabou numa parede. Vi o acidente na pista do sentido contrário ao que ia e pedi ao motorista que parasse onde desse para fazer um registro. Quando atravessei as pistas e cheguei ao veículo vi que o motorista era auxiliado pelos bombeiros pois estava preso nas ferragens. A Avenida Brasil parada por causa do acidente. Se tivesse saído um pouco antes do cemitério talvez passasse após o acidente. Se saísse depois, talvez só chegasse quando o motorista fosse retirado. Por sorte, saímos do cemitério em sincronia com os eventos do acidente e chegamos poucos minutos após o ônibus colidir. Antes do Extra o único coleguinha a chegar no local foi a Folha de SP. O Globo chegou cerca de 50 minutos depois de nós. O Dia mais tempo ainda. O JB eu nem vi, mas acho que chegou depois que o motorista foi tirado. E nenhuma das redações e suas escutas têm culpa disso. Em jornalsmo, muitas vezes, depende-se tanto da sorte como da paciência. Sorte para estar no lugar certo na hora certa. Paciência para se manter atento até a sorte chegar.

Foto: Rafael Andrade / Agência O Globo

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Primeira no Brasil


Jornais têm um ritmo próprio. As vezes, de lentos, morosos e preguiçosos, passam a um frenético desespero quando algo acontece. Na verdade, quem mais gosta de fazer jornal adora esses momentos. Gosta da adrenalina de estar no centro dos acontecimentos, competindo com dezenas de outros profissionais para apurar a melhor informação, conseguir a melhor foto, de preferência a mais bem composta, mais bem iluminada, a que por mérito, sorte ou coincidência, se diferencia das outras pelo algo mais que atrae os olhos e o reconhecimento dos colegas.

Os patos novos - eu incluso - sempre têm aquela esperança de que o trabalho se sobresaia em meio aos feras. Todos trazem consigo aquela vontade de que a sua imagem seja a eleita, pelos colegas e por quem a vê, como a melhor, a digna de uma primeira página.

No entanto, boa parte dos dias, o trabalho em jornal é mais investimento, transpiração do que acontecimento. E é normalmente nestas horas que se tem de brigar para achar algo que permita elevar o assunto menos importante à categoria de primeira pagina. A foto abaixo é um exemplo modesto disso. Era uma saída para o Extra numa "matéria fria" sobre as escolas públicas no trajeto da antiga estrada Rio SP, no KM 34, em Nova Iguaçu. Falta de aulas, falta de professores. O menino - cujo nome eu não guardei - tinha saído da escola pública perto de sua casa por causa da falta de professores para sua série. A mãe conversava com a repórter e eu mexia com ele, apontava a câmera, brincava, ele ria, ria, até que ele ficou sério. Na hora, percebi o nome do CIEP por entre a grade e acertei velocidade e diafragma. Algumas chapas, mas só duas com a expressão que justificava a matéria. É o que os colegas chamam de "carpeta". Mas neste caso, eu chamo de "primeirinha".
Foto: Rafael Andrade / Agência O Globo